terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Andrea Doria


Às vezes parecia que de tanto acreditar 
Em tudo que achávamos tão certo
Teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais
Faríamos floresta do deserto
E diamantes de pedaços de vidro

Mas percebo agora
Que o teu sorriso vem diferente
Quase parecendo te ferir

Não queria te ver assim
Quero a tua força como era antes
O que tens é só teu
E de nada vale fugir
E não sentir mais nada...

Às vezes parecia que era só improvisar
E o mundo então seria um livro aberto
Até chegar o dia
Em que tentamos ter demais
Vendendo fácil o que não tinha preço

Eu sei é tudo sem sentido
Quero ter alguém com quem conversar...
Alguém que depois não use o que eu disse contra mim...

Nada mais vai me ferir
É que eu já me acostumei
Com a estrada errada que eu segui
E com a minha própria lei
Tenho o que ficou e tenho sorte até demais
Como sei que tens também... 

Legião Urbana

Os defeitos de Clarice



Estou deitada ouvindo "Andrea Doria" e tudo o mais de deprê que pode haver na minha playlist e comecei a pensar nesse lance de defeitos...
Como todos sabem, os defeitos só nos servem para uma coisa: mostrar a nossa incapacidade de aceitação. Eles existem! Todos temos! Você pode se achar uma pessoa politicamente correta, alguém que se importa com os outros e blábláblá! mas em algum lugar aí dentro você não presta.
Denotativamente falando, defeito é deformidade; imperfeição física ou moral; vício. E então? Dá pra aceitar que todos nós, na hora de nossa fabricação, acabamos por ficar com aquela tal deformidade que nos acompanhará pelo resto de nossas vidas? Algum conservador estará dizendo que não é bem assim... "nós temos o domínio sobre nossas escolhas e o que fazemos de errado pode ser evitado..." blábláblá again! 
Sem querer entrar no mérito de que o conceito de autonomia humana é absolutamente equivocado, as imperfeições devem ter um lado bom. O que seria da vida sem um lado conflituoso? Clarice Lispector conhecia bem a questionabilidade dos defeitos. Certa vez ela disse que
 "Até cortar os nossos defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro"
O que seria dos romances de Clarice se não fossem os dilemas humanos, certo? Li em algum lugar que a escritora tinha um defeito de pronúncia em algumas palavras e que por isso resolveu fazer uma cirurgia de correção; em apenas alguns dias já conseguia falar normalmente. Algum tempo depois ela entra no consultório dizendo "Estou falando direito, mas essa não é a Clarice. Preciso falar errado como antes." Como eu disse, li isso em algum lugar, portanto, não posso atestar essa história como verdadeira, mas posso dizer que é bem possível ter acontecido.
Enfim, acho que o segredo está em entender as nossas deformidades, tentar contorná-las de modo a não ofender alguém, pois reconhecer que todos somos defeituosos não serve como desculpa pra sair por aí desferindo golpes contra o mundo. É uma questão de aceitação. É preciso aceitar quem somos; aceitar quem os outros são. Ser diferente é normal, alguém já disse. 
Ao contrário do que se poderia desejar, essa descoberta não nos faz mais capazes de conviver tranquilamente em sociedade - mesmo por que tem alguns que merecem uns tiros - mas nos permite entender... sentir de maneira diferente. Os homens sempre errarão, pois a humanidade está fadada a isso.   Então o que faremos? mudaremos para o coitado de Plutão, aquele que os infelizes dos homens foram dar pitaco lá no espaço e decidiram que o cara não tem capacidade pra ser um planeta? (não falei que alguns merecem uns tiros?!) Acho que isso não serve como solução... talvez seja melhor respirar fundo, contar até 1.000.000.000.000 (nem sei falar isso! rs) e aceitar todos da maneira que somos, pois, afinal, o  mundo provavelmente não teria a menor graça se não fossem as Clarices.

sábado, 20 de novembro de 2010

Fiel

 
 
Há distância no ar
E eu não consigo fazer passar
Eu aceno meus braços ao meu redor
E sopro com toda minha força

 
Eu não posso te sentir perto
Contudo eu sei que estás sempre aqui
Mas o conforto da sua proximidade
É o que eu anseio

 
Quando não posso te sentir
Eu tenho aprendido a alcançar da mesma forma
Quando não posso te ouvir
Eu sei que Tu ainda ouves cada palavra que eu oro
E eu Te quero
Mais do que eu quero viver outro dia
E a medida que eu espero por Ti
Talvez eu seja mais fiel

 
Toda a tolice do passado
Embora eu saiba que está desfeito
Eu ainda me sinto o culpado
Ainda tentando acertar


Então eu sussurro Teu nome
Deixo isso rolar em minha língua
Sabendo que és o único que me conhece
Tu me conheces


Mostra-me como eu devo viver isso
Mostra-me onde eu devo andar
Eu considero esse mundo como desperdício pra mim
Tu és tudo que eu quero
Tu és tudo que eu quero



"Faithful" - Brooke Fraser
http://www.youtube.com/watch?v=gVOrJbd44Dc
http://letras.terra.com.br/brooke-fraser/968413/traducao.html

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A lucidez perigosa


Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.

Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade
é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.

Clarice Lispector

Lágrimas Ocultas


Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

Florbela Espanca

É fácil trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!
É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!
É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!
É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!
É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!

Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo.

Fernando Pessoa

O humor do fodido


O mau humor é o melhor antídoto que existe. Nada como tomar o café da manhã com uma mulher irritada, ser passageiro de um motorista que vive reclamando do trânsito, conversar com um carrancudo que destila ódio para a classe política. São companhias estimulantes, afrodisíacas. Além de tudo, bem informadas. O pessimista é uma enciclopédia vendida de porta em porta. O otimista é que não lê jornal.

O otimista é frouxo, repete as mesmas frases evasivas e genéricas como “precisa acreditar” ou “tenha esperança”. O pessimista é pessoal, persuasivo, abrirá seus segredos com desembaraço. O otimista rende somente auto-ajuda. O pessimista proporciona alta literatura.

Guardo deslumbramento auditivo diante das pessoas que não respondem tudo bem no cumprimento. Enchem as vogais para declarar "tudo péssimo". Puxo a cadeira mais próxima e me sento com reverência porque percebo que descobri um corajoso no mundo, que vai se confessar com absoluta sinceridade, que tem vida própria e casa alugada.

O azedume é a inteligência em estado bruto. Aplaudo a loquacidade da tristeza. Desespero quando não fala é fatal. Desespero que esperneia é manso. Nunca fui de brigar, por exemplo, mas de espernear. Queria ser segurado pelos colegas antes de apanhar. Minha honra fez teatro na escola.

O mau humor do outro me deixa eufórico. Recebo uma sensação de paz que encontrei uma vez, ao soltar folhas de livro inédito no Rio Sena, apesar de não ter estado em Paris.

Do veneno alheio, surgirá sabedoria, ensinamento, conselhos. Quase uma aula de ecologia sentimental.

Orgulho-me desse humor muito brasileiro, incomparável. Daquele cara que deu tudo errado e ainda está achando graça. Sofreu enchente, deslizamento, seca, foi corneado e não se entrega. Não fechará o negócio, a cara, a amizade. É o que não tem motivos para rir e está rindo. Seu riso é perigoso. Seu riso é ofensivo. Seu riso é o caráter do pulmão.

Não confio em sujeito com felicidade de sobra. Será avarento e indiferente. Quem tem esconde. Unicamente peço dinheiro emprestado ao amigo que já faliu. É um pré-requisito que não costuma falhar.

Eu me interesso pela falta de explicação da alegria. Viva o humor do fodido. É o único que sobrevive às tragédias. Não ficará traumatizado, arrumará uma piada no acidente. Não ficará encastelado no quarto, pagará uma rodada ao pessoal do balcão.

A desgraça o torna generoso. Repentinamente natalino.

Meus grandes amigos estão cansados de recados, cada dia é um ultimato. Odeiam quando a atendente pergunta de onde são. Têm rancor por essa mania de rodoviária que atinge a maior parte das secretárias.

Meus grandes amigos são mórbidos. Compraram o jazigo na juventude. Os que pensam na morte cedo demoram a morrer. Preparam-se com tanta antecedência que perdem a hora.

A maldade preserva e o bem só traz rugas.

Posso garantir, todo santo estava acabado aos 40 anos.

Fabricio Capinejar - PavaBlog#